Vítima de estupro disse em depoimento que homem condenado injustamente no Ceará não era autor do crime•>
Antônio Cláudio Barbosa de Castro foi solto nesta semana após cumprir parte da pena por estupro que não cometeu. Defensoria Pública e advogada apontam falhas na investigação e no julgamento.A Defensoria Púbica do Ceará, uma advogada do Innocence Project e uma vítima de estupro do "maníaco da moto" apontam as falhas na investigação que levaram Antônio Cláudio Barbosa de Castro a ser preso e condenado no lugar do verdadeiro criminoso. O borracheiro cumpriu pena de quase cinco anos na Casa de Privação Provisória de Liberdade 5, na Grande Fortaleza, por um crime que não cometeu, e recebeu liberdade nesta semana, após um novo julgamento inocentá-lo.
Uma das vítimas do criminoso que estuprava mulheres na periferia de Fortaleza depôs em defesa de Antônio Cláudio, argumento que não foi suficiente para mudar o veredito que o condenou a nove anos de prisão, em 2018. A condenação de Antônio Cláudio só foi revista após a Defensoria e a ONG apresentarem novas provas e perícias.
Borracheiro foi inocentado após passar cinco anos presos no Ceará — Foto: Natinho Rodrigues.
"Eu disse lá em depoimento no Fórum que [o "maníaco da moto"] não era ele [Antônio Cláudio]. Inclusive o advogado me perguntou 'você tem certeza que não é ele?' Eu disse: 'não é ele: ele é muito baixo, o cara que me atacou é muito alto e é branco. E ele era baixo e moreno'."
O ataque contra ela ocorreu por volta das 8h30, na Rua Seifht, no Bairro Parangaba. "Ele me deu uma gravata, tentou me beijar e passava a mão em mim, me ameaçava o tempo todo, fazendo menção de que estava com uma arma", conta. Dessa vez, o maníaco recuou porque uma pessoa viu a tentativa de estupro e gritou. Ele acabou indo embora.
A Defensoria Pública e advogados de Antônio Cláudio criticam também o fato de a condenação ter sido feita sem provas técnicas, apenas com base em relato de uma criança de 11 anos. "É um erro gritante, grotesco", afirma o defensor Émerson Castelo Branco.
Antônio Cláudio foi preso durante cinco no lugar de homem que estuprou oito mulheres em Fortaleza — Foto: Natinho Rodrigues
Sequência de estupros em 2014
A polícia do Ceará procurava o autor de uma onda de estupros em 2014 em bairros da periferia de Fortaleza. O criminoso circulava em uma motocicleta vermelha, abordava mulheres em ruas com pouca movimentação, as ameaçava com uma faca e as estuprava. Devido ao veículo que usava, ele ficou conhecido nas regiões por onde cometia os crimes como "maníaco da moto".
Antônio Cláudio entrou nessa história quando foi cortar o cabelo em um salão que sempre frequentou. "Cumprimentei todo mundo normal. Tinha lá amigas minhas de infância, de colégio, um dia aparentemente normal cumprimentei todo mundo como sempre", afirma o borracheiro.
Uma das vítimas do "maníaco da moto", uma menina de 11 anos, estava em um outro ambiente do mesmo salão. "E quando ele chega, adentra o salão, ele fala e ela escuta a voz dele, mas ela não viu ele em momento algum", lembra Geralda Barbosa, irmã de Antônio Cláudio.
De acordo com a mãe da menina, a criança identificou a voz de Antônio Cláudio como sendo o autor do crime. "Ela falou com a pessoa, a proprietária do salão e a proprietária do salão disse que não era ele, que não tinha condições de ser ele e mostrou uma foto, que não era a pessoa da que ela tava falando. E a partir daí, a menor pegou uma rede social do meu irmão e compartilhou entre as outras", diz Geralda.
A partir desse fato, Cláudio passou a ser investigado e foi alertado por pessoas próximas. "Uma amiga minha me avisou que estavam pessoas me procurando, investigando sobre minha vida, até o jeito que eu andava, o jeito que eu me sentava em uma moto. Tinha pessoas que 'Cláudio, tu não achava estranho, não?' Eu disse: 'rapaz, quem não deve não teme'. Foram essas palavras que eu disse".
Família de Antônio Cláudio o aguardou na porta de presídio na Grande Fortaleza — Foto: Natinho Rodrigues
Reconhecimento e renúncia da acusação
Quando viram a foto de Cláudio, cinco das oito vítimas do "maníaco da moto" o apontaram como o autor dos crimes. Ele foi levado a uma delegacia para o reconhecimento facial.
"Houve a divulgação da foto dele em redes de WhatsApp, e as mulheres foram dizendo que era ele no momento em que viam aquela foto. Então quando elas chegavam na delegacia e viam o Antônio Cláudio, elas viam o homem da foto", defende Flávia Rahal, advogado do Innocence Project, ONG que defende pessoas condenadas injustamente.




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